Movimento Nacional da Cidadania pela Vida: Brasil sem Aborto

Movimento Nacional da Cidadania pela Vida: Brasil sem Aborto

Brasil sem Aborto  //  Movimento da Cidadania pela Vida - Brasil sem Aborto

Oct 21 / 4:28am

Células-tronco: uma questão de limites éticos

A edição de hoje do Jornal do Brasil abriu-me espaço para dizer algumas coisas que há tempos eu queria dizer

Uma questão de limites éticos

 

Lenise Garcia , Jornal do Brasil

 

RIO - Em 5 de maio de 2008, antes do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) que questionava o uso de embriões humanos para pesquisa, fiz parte de um grupo de cientistas, parlamentares, juristas e lideranças nacionais de movimentos em defesa da vida humana, que divulgou a “declaração de Brasília” sobre a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas.

Dizíamos, já àquela altura:

“Pretende-se contrapor a vida dos embriões congelados... à terapia e cura de muitos que padecem de doenças graves em nosso país. Não temos receio em afirmar, com toda ênfase, que tal dilema é falso... Ao contrário do que tem sido veiculado e acriticamente aceito pela opinião pública, as células-tronco embrionárias não são a grande promessa para gerar terapias. Na verdade, são as células-tronco adultas que têm produzido expressivos resultados, que se apresentam ainda mais promissores depois do desenvolvimento da técnica de indução de pluripotencialidade em células adultas”.

Depois de várias explicações técnicas, continuávamos: “As células-tronco embrionárias humanas, por apresentarem graves riscos à vida e saúde dos pacientes, sequer podem ser testadas em seres humanos. No modelo animal, essas células têm resultado na formação de teratomas, rejeição, entre outros problemas graves, não havendo, portanto, segurança para se iniciar experimentações em seres humanos”.

Nessa declaração, na histórica audiência pública que houve no STF e no material que encaminhamos aos senhores ministros, esclarecíamos que todos os exemplos mostrados de sucesso no uso de células-tronco em seres humanos, haviam sido obtidos com o uso de células-tronco adultas. Frisamos que já havia mais de 20 mil pacientes em teste clínico, envolvendo pelo menos 73 doenças diferentes, usando células adultas.

Salientávamos também, como muito promissora, a linha de pesquisa que havia sido aberta com as células-tronco pluripotentes induzidas (iPS). Este é um dos achados científicos mais significativos da atualidade; mais importante do que a clonagem da ovelha Dolly.

Dizíamos: “Sendo o Brasil um país que não dispõe de grandes recursos para aplicação em pesquisa, é crucial que sejam bem empregados”. Em julho de 2009, outro experimento nos surpreendeu: usando a mesma técnica com que se obtiveram as iPS, foram clonados camundongos, o que deixa próxima a possibilidade técnica da clonagem humana. Ao comentar a questão, chegaram a questionar qual seria a nossa posição agora, diante da perspectiva do uso pouco ético dessas células que tanto havíamos defendido.

De minha parte, não vejo dificuldade em continuar a defender as iPS para tratamento de doenças, desde que não se faça com elas a criação de embriões, ou seja, o processo que equivale à clonagem. À medida que se dominem os processos gênicos envolvidos na diferenciação celular, cada vez se poderá modificar as células adequando-as à terapia celular, sem necessidade de aproximá-las muito das embrionárias.

Quanto à possibilidade da clonagem reprodutiva, trata-se de mais um campo em que são necessários os limites éticos e mais uma evidência de que nem tudo que é tecnicamente possível pode ser considerado aceitável. Não temos dúvidas de que o século 21 verá surgir inúmeras inovações tecnológicas no campo da genética humana e da manipulação celular. Exatamente por isso é mais importante considerar os limites éticos, respeitando a vida humana em todas as suas vertentes e desde a concepção até a morte natural.

Lenise Garcia é professora do Instituto de Biologia da Universidade de Brasília e presidente do Movimento da Cidadania pela Vida – Brasil sem Aborto.